03 julho 2007

Começando o dia

Não tem jeito: Rose acorda sempre mal-humorada, apesar do marido a despertar com carinho, pois sabe bem como é seu humor. Sai de casa se arrastando até o ponto de ônibus, acende o seu cigarro e espera o 497 ou 434 passar, sempre lotado.
Durante o caminho, pensa em sua vida, ou às vezes nem pensa, ou até pensa em coisas que vê nas ruas, como o porquê de tantos urubus voando naquele céu tão lindo, como faz tão frio e esqueceu de colocar o casaco. Pensa nas coisas que irá fazer, nos e-mails que receberá. O tempo passa: - “Quanto sinal fechado!”, supõe ela. “Desse jeito vou chegar atrasada de novo, e com certeza terei que trabalhar todos os sábados”. Foi uma regra imposta pelo chefe Júlio César: Quem chegasse atrasado por três vezes, irá trabalhar durante um mês, todos os sábados. Se bem que ele sempre muda de idéia; Júlio é um diretor muito esquecido, nunca se lembra do que diz.
Lá vem Rose, com seus passos longos e andando quase correndo para o trabalho. Parece que já está animada, diz bom dia para todas, encontra com a Débora e a Luciana que são as recepcionistas e captadoras de alunos. O colégio está em época de matrícula para o segundo semestre. A procura é constante.
_ Bom dia, tudo bem com vocês? O Júlio já ligou?
Luciana com sua voz macia e no outro lado do mundo responde lentamente:
_ Bom Dia, Rose. Tudo bem. Não, ele ainda não ligou, mas com certeza irá ligar!
Débora, bem mais rápida e rude, quase não responde, ou se responde, fala para dentro:
_ Bom Dia. Não esquece de assinar o ponto; são exatamente 8 e 04!
_ Rose, quando mesmo é o início das aulas? E qual é o valor das mensalidades? - Pergunta a mais esquecida do colégio, Luciana.
_ Luciana, não está escrito no caderno? As aulas irão começar no dia 9 de agosto, eu já falei isso para vocês, não foi? E o valor das mensalidades não mudou, continua o mesmo, R$ 248,00.
_ É Rose, só que vocês mudam os dias o tempo todo! Como vou saber qual é o certo? Eu não tenho culpa.
_ Tudo bem, o início vai ser dia 9 e ponto final. Anota aí.
"O dia não está começando bem." - Pensou Rose.
_ Alguém foi comprar pão?
_ Não, ninguém tem dinheiro para o Josias ir comprar... “Tá” todo mundo duro e eu "tô" com fome, diz Débora.
_ Poxa, gente! Tem dinheiro na caixinha, é só subir e dar o “dindin” pro Josias. Falou Rose.
_ Não sabia. Por que a Renata não deixa aqui na frente? Assim, quem chegar primeiro dá o dinheiro pro Josias ou a Maisé comprar! Disse Débora já irritada. Essa não tem papa na língua; fala mesmo.
_ Já foi cogitada essa idéia, só que ninguém a coloca em prática. Temos que conversar com a Renata, ela é do financeiro...
Lá vem Josias pendurado no celular, para variar. Entra no meio do papo:
_ Cadê o dinheiro? Cadê a Maisé? Ela é quem vai comprar! Eu não quero ir, vou arrumar as salas, tenho que varrer o tapete...
_Josias, sem essa! Diz Rose, bem calma. É você quem vai, a Maisé ainda não chegou, deixa de preguiça! Toma aqui o dinheiro e depois pego com a Renata. Compra pão e leite e não esqueça a notinha.
Ele sempre esquece ou não entrega. Cabeça de vento!
O rapaz sai resmungando o tempo todo.
_ Se deixar a caixinha aqui, vai sumir! E quem irá se responsabilizar? Ninguém! Disse Rose. Vou lá para dentro beber um café e fumar um cigarrinho.
_ Eu vou com você - falou Débora. - Assim aproveito e dou um trago.
Chegaram as duas até a cantina, Rose acende um cigarro e senta no jardim para saborear o seu "caretinha".
_ Pôxa, Rose. Você podia socializar mais o cigarro. Acende e nem oferece...
Rose olha espantada para Débora, sem acreditar no que está ouvindo:
_ É...e você devia comprar mais também, em vez de ficar reclamando... Cara de pau!!!
Nesse instante, chega Branca, toda alegre e saltitante:
_ Bom Diaaaaaa...
Débora responde com um ar de malícia:
_ Eita... A noite foi boa!!!
Gargalhadas soaram alto.
Branca conta como foi a sua noite. Fez aniversário de namoro e ganhou um cartão que a deixou emocionada:
_ Gente, César, meu namorado, me deu um cartão lindo, nele estava escrito todos os seus sentimentos por mim, chooooooreeeeei... A noite foi linda, fomos ao restaurante, depois ao cinema e ainda bebemos antes de chegarmos em casa. Ma-ra-vi-lho-sa!!!
Rose comenta:
_ Branca, você chora por qualquer coisa...tem coração de manteiga...
_ Ah, Rose, você não é nenhum pouco romântica, né? Branca suspira...

4 comentários:

Thiago Panza Guerson disse...

Hum... quero o clímax!!
Bom.. muito bom!

Bjs!

Anônimo disse...

Ficcional mas fidedigno, conseguiu unir ambos com humor e imaginação!!
*** Coração de manteiga sabor alho com pimenta extra forte!!
Beijos

Maytê disse...

Muito bom,da vontade de continuar lendo e nao parar mais...
Aguardo cap. 2

Maytê disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
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